sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Fico


No espaço que me cabe, fico inerte, cessando todo o corpo
Num espasmo o corpo bicho se revolta contra a camada frágil e persistente da inexistência
Inorgânico, hermético, insensível, inexplorável
A matéria besta evacuada pela razão por todos orifícios

Constancia sedutora, imaginária... a única súplica
O movimento consiste nas tentativas de expurgar o caos
O movimento incessante e gradativo na tentativa de expurgar
Caos estabelecido e suplicado pelo inconsciente adormecido.

Estruturo-me na incerteza do não saber eterno.
Absorvo dos vazios a música do silencio
Suspensa na esperança dos começos intermináveis
Aquieto e me aflijo no fluxo inerte do pensamento

O corpo todo desprendido da matéria
Desfragmenta-se e busca na imagem as cores esquecidas
Os sentidos inflamados capturam do inacessível o abstrato
Das tentativas, a certeza da busca inerente pelo inconcebível

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

De Frida para Diego


Minha noite é como um grande coração batendo. São três e meia da madrugada. Minha noite é sem lua. Minha noite tem olhos grandes que olham fixamente uma luz cinzenta filtrar-se pelas janelas. Minha noite chora e o travesseiro fica úmido e frio. Minha noite é longa, muito longa, e parece estender-se a um fim incerto. Minha noite me precipita na ausência sua. Eu o procuro, procuro seu corpo imenso ao meu lado, sua respiração, seu cheiro. Minha noite me responde: vazio; minha noite me dá frio e solidão. Procuro um ponto de contato: a sua pele. Onde você está? Onde você está? Viro-me para todos os lados, o travesseiro úmido, meu rosto se gruda nele, meus cabelos molhados contra as minhas têmporas. Não é possível que você não esteja aqui. Minha cabeça vaga errante, meus pensamentos vão, vêm e se esfacelam. Meu corpo não pode compreender. Meu corpo quer você. Meu corpo quer esquecer-se por um momento no seu calor, meu corpo pede algumas horas de serenidade. Minha noite é um coração de estopa. Minha noite sabe que eu gostaria de olhar você, acompanhar com as minhas mãos cada curva do seu corpo, reconhecer seu rosto e acariciá-lo. Minha noite me sufoca com a falta de você. Minha noite palpita de amor, amor que eu tento represar mas que palpita na penumbra, em cada fibra minha. Minha noite quer chamar você, mas não tem voz. Mesmo assim quer chamá-lo e encontrá-lo e se aconchegar a você por um momento e esquecer esse tempo que martiriza. Meu corpo não pode compreender. Ele tem tanta necessidade de você quanto eu, talvez ele e eu, afinal formemos um só. Meu corpo tem necessidade de você, muitas vezes você quase me curou. Minha noite se esvazia até não sentir mais a carne, e o sentimento fica mais forte, mais agudo, despido da substância material. Minha noite se incendeia de amor. São quatro e meia da madrugada. Minha noite se esgota. Ela sabe muito bem que você me faz falta e toda a escuridão não basta para esconder essa evidência. Essa evidência brilha como uma lâmina no escuro. Minha noite quer ter asas para voar até onde você está, envolvê-lo no seu sono e trazê-lo até onde estou. Em seu sono você me sentiria perto e seus braços me enlaçariam sem você despertar. Minha noite não traz conselhos. Minha noite pensa em você, sonha acordada. Minha noite se entristece e se desencaminha. Minha noite acentua a minha solidão, todas as minhas solidões. O silêncio ouve apenas minhas vozes interiores. Minha noite é longa, muito longa. Minha noite teme que o dia nunca mais apareça, porém ao mesmo tempo minha noite teme seu aparecimento, porque o dia é um fio artificial em que cada hora conta em dobro e, sem você, já não é vivida de verdade. Minha noite pergunta a si mesma se meu dia não se parece com a minha noite. Isso explicaria à minha noite por que razão eu também tenho medo do dia. Minha noite tem vontade de me vestir e me jogar para fora, para ir procurar o meu homem. Minha noite o espera. Meu corpo o espera. Minha noite quer que você repouse no meu ombro e que eu repouse no seu. Minha noite quer ser voyeur do seu gozo e do meu, ver você e me ver estremecer de prazer. Minha noite quer ver nossos olhares e ter nossos olhares cheios de desejo. Minha noite é longa, muito longa. Perde a cabeça, mas não pode afastar de mim a sua imagem, não pode fazer desaparecer o meu desejo. Ela morre por saber que você não está aqui, e me mata. Minha noite o procura sem cessar. Meu corpo não consegue conceber que algumas ruas ou uma geografia qualquer nos separe. Meu corpo enlouquece de dor por não poder reconhecer no meio da minha noite a sua silhueta ou a sua sombra. Meu corpo gostaria de beijá-lo em seu sono. Meu corpo gostaria em plena noite de dormir e, nessas trevas, ser despertado com os seus beijos. Minha noite não conhece hoje sonho mais belo e mais cruel do que esse. Minha noite grita e rasga os seus véus, minha noite se choca contra o próprio silêncio, mas meu corpo continua impossível de ser encontrado. Você me faz tanta falta, tanta. E suas palavras. E sua cor.

domingo, 31 de outubro de 2010

Eus de Protótipos Crônicos


Ninguém ainda me esclareceu o que está acontecendo. Continuo esperando.
Quando sou eu, parece haver um outro eu que finge ser quem sou. A policia de Dubai informou hoje.
Quando abro os olhos, faço todas as associações. a carga aérea que vinha do Iemen continha um explosivo. É como se fizesse alguma ligação com a verdade que já existia.
Com marcas da rede, em algum canto da minha escuridão. Terrorista Al Qaeda.
Não sei dizer quem sou eu que diz isso agora.
Senti como se fosse real...
O dispositivo estava camuflado em um cartucho de tinta.
Havia um fluido em cada movimento, quando pensava no tempo, dentro da impressora, corrompia-o.
Em todos os olhos. O presidente. A humanidade carrega nos olhos o que mais lhes dá medo. O próprio olhar.
O tempo cria nossos pensamentos, como ainda existo?
Quem realmente existe? Anuncia uma ameaça real. Qual eu vai permanecer quando dissipar o tempo?
Areia eterna tenta mover os passos e todos os caminhos retornam a areia.
Caibo num segundo toda a existência reprimida por séculos, séculos, séculos. Real.
De ataque. Nos símbolos que busco não encontro algum que me esclareça o que está acontecendo agora. Acontecendo agora. Agora. Terrorista.
Os olhos abertos seduzem sua própria composição das imagens, ao país. As imagens seduzem o eu aprisionado naquela escuridão inevitável.
Quem sou eu? Súplica eterna presente em todas as orações. Ao país. Insuportável pergunta que vem gritar pelo espaço feito eco constante, e o que faz é ensurdecer. Resta o silencio repousado sobre a areia. Repousando. Surge do silencio, silêncios repletos do vazio imensurável. Silêncios...

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Comida


Estarei faminta por alguns séculos
E quando sentir fome
Iniciarei comer minha alma
Com gosto de excessos
Um bocado adocicada
Saciar-me-ei de abstratos
De sonhos feito sobremesa
Adoçando meus lábios e sentidos
Também o sentido do paladar amargo
Dos rancores mal digeridos
do azedume da falta de fé
E do tempero forte de amores quentes
Hei de evacuar pelos orifícios
Toda matéria sem vida
Estarei nutrida
Saciada da existência comida

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Corpo Santo


O corpo estava envolto em uma camada espessa de poeira e sangue.
As chagas expostas ardendo e jorrando já sem muita pressa o resto de sangue.
Morte. O sentido da palavra veio sem a geração mental. Sem palavras que definissem, o conceito de morte concebeu-se em um lampejo eterno, não só através da mente, mas percorreu-lhe todo o corpo. Sentiu o cheiro da carne queimada, do sangue batido e o gosto da terra.
Num esforço ainda, carregou para dentro o ar que lhe cortava os pulmões, sentiu o oxigênio formigar-lhe todo o corpo, e esvair-se pelas veias e poros. Soube naquele momento que, equivocadamente e em vão, durante toda vida buscou se encontrar para começar a ser alguém. Alguém ou uma imagem?
Sete chagas perfuradas e corroídas pela ferrugem dos pregos. As chagas já existiam antes mesmo de que existisse nelas. As mazelas todas o esperavam antes mesmo de conceber o sofrimento.
Num suspiro ultimo que lhe arrancou todos os sentidos, expiou por todos os corpos restantes e pelo seu próprio, que num fragmento de eternidade rompeu da Terra a breve sentido da existência.

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Paixão, Sangue e Fogo


Nas camas em que deito seu cheiro vem me lembrar do êxtase infinito que nos era concebido, e tantas outras tentativas permitem-me apenas fragmentos que não saciam. Um cheiro e uma lembrança da boca agressiva e doce que me sugava de dentro toda existência, transportando-nos para aquele infinito imensurável, nosso recanto divino.
Tantas mãos e esse corpo frio, privado de novos prazeres devido uma ausência descabida que deixaste sem culpa, sem nenhuma culpa.
Vivo ainda, pois há esperança insana de alcançar teus braços, sentir cada pêlo do seu sexo perfeito. Deslizar minha língua, olhos e lábios pelo pescoço de seda e pêssego, entrar e ficar nestes olhos que são a própria noite, mergulhados no breu cintilante das galáxias, duas esferas geladas que me ardem e queimam meus órgãos numa chama que não se finda.
Morro na esperança de viver novamente o sentido intenso que é me perder entre os corpos sem saber entre nós quem sou. Dissolver-me no transe, em cada espasmo, diluir nossas percepções, apenas permitir a manifestação de todas as luzes que penetram pelos poros, e todas as cores que explodem diante das pálpebras trêmulas.
Esse teu fogo egoísta, que ao invés de queimar-me até os ossos deixou-me em brasa ascendente que me arde e não me consome, arde mais e mais a cada segundo que não vens. E não vens. Hei de mergulhar em tantas outras camas, em tantos outros corpos e essa brasa me torturando sem cessar...
Hei de buscar a cor dos seus olhos, suas formas perfeitas, o teu gosto em outros corpos, louca, hei de buscar qualquer pedaço que me traga a efêmera ilusão da tua presença. De olhos fechados, vou me enganar até ensandecer...
Entrego-me a esse fogo, inconseqüente, abandono-me e vivo o sofrimento eterno que é tua ausência. E tua lembrança, tua existência e a ilusão absurda que cativo são o que permitem minha sôfrega respiração.

segunda-feira, 19 de julho de 2010

Virando Estrelas


Acordou num sonho eterno, onde a cabeça sempre leve, o corpo voluntário e as mãos, tão delicadas, faziam das ações uma espécie de obra de arte. Foi deslizando pelo sonho que era a vida, quando uma borboleta de gigantescas asas roxa e vermelha pousou sobre seu braço estendido. Sentiu a verdade nas patinhas de uma borboleta gigante. Como se despertasse, fechou os olhos novamente, uma esperança inédita de voltar a dormir, ou acordar, já não sabia mais. Enquanto se esforçava, a borboleta caminhava pelo seu corpo, criando uma cócega gostosa e estranha. Foi quando sentiu as cócegas na barriga, percebeu que estava nua. Que espécie de corpo é esse que não lhe dizia se era quente ou frio do lado de fora? Mas estava toda pra dentro, e era confortável. Começou a escorregar numa areia movediça que surgiu sob seus pés. Não tinha medo. Permitiu. Era agora borboleta, e suas asas negras por dentro desprendiam a essência... uma essência, que não sabia, mas era aquela a essência. Dissolveu-se toda na essência, as asinhas em pó tão fininho e brilhante que lembrava purpurina. E não era purpurina? Agora sabia, purpurina nada mais era que asa de borboleta dissolvida. Por que ninguém lhe explicara antes? Antes... antes, antes... nunca existira o antes. O tempo nunca existira. Concebeu a percepção sem palavras pensadas. Percebeu apenas. E não percebeu que toda sua essência, purpurina asa de borboleta, fora despencada do infinito, vindo atingir um plano de inúmeras dimensões e cores furta-cor, que mais lembrava o céu visto da terra... Mas não tinha mais lembranças, não pode pensar no céu da terra. Como se o céu fosse da terra. E não é que era? Ficou por lá, toda espalhada, em proporções imensuráveis que refletiam as luzes dos astros, que compunham o cenário do infinito manifesto.