quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Corpo Santo


O corpo estava envolto em uma camada espessa de poeira e sangue.
As chagas expostas ardendo e jorrando já sem muita pressa o resto de sangue.
Morte. O sentido da palavra veio sem a geração mental. Sem palavras que definissem, o conceito de morte concebeu-se em um lampejo eterno, não só através da mente, mas percorreu-lhe todo o corpo. Sentiu o cheiro da carne queimada, do sangue batido e o gosto da terra.
Num esforço ainda, carregou para dentro o ar que lhe cortava os pulmões, sentiu o oxigênio formigar-lhe todo o corpo, e esvair-se pelas veias e poros. Soube naquele momento que, equivocadamente e em vão, durante toda vida buscou se encontrar para começar a ser alguém. Alguém ou uma imagem?
Sete chagas perfuradas e corroídas pela ferrugem dos pregos. As chagas já existiam antes mesmo de que existisse nelas. As mazelas todas o esperavam antes mesmo de conceber o sofrimento.
Num suspiro ultimo que lhe arrancou todos os sentidos, expiou por todos os corpos restantes e pelo seu próprio, que num fragmento de eternidade rompeu da Terra a breve sentido da existência.

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