
Acordou num sonho eterno, onde a cabeça sempre leve, o corpo voluntário e as mãos, tão delicadas, faziam das ações uma espécie de obra de arte. Foi deslizando pelo sonho que era a vida, quando uma borboleta de gigantescas asas roxa e vermelha pousou sobre seu braço estendido. Sentiu a verdade nas patinhas de uma borboleta gigante. Como se despertasse, fechou os olhos novamente, uma esperança inédita de voltar a dormir, ou acordar, já não sabia mais. Enquanto se esforçava, a borboleta caminhava pelo seu corpo, criando uma cócega gostosa e estranha. Foi quando sentiu as cócegas na barriga, percebeu que estava nua. Que espécie de corpo é esse que não lhe dizia se era quente ou frio do lado de fora? Mas estava toda pra dentro, e era confortável. Começou a escorregar numa areia movediça que surgiu sob seus pés. Não tinha medo. Permitiu. Era agora borboleta, e suas asas negras por dentro desprendiam a essência... uma essência, que não sabia, mas era aquela a essência. Dissolveu-se toda na essência, as asinhas em pó tão fininho e brilhante que lembrava purpurina. E não era purpurina? Agora sabia, purpurina nada mais era que asa de borboleta dissolvida. Por que ninguém lhe explicara antes? Antes... antes, antes... nunca existira o antes. O tempo nunca existira. Concebeu a percepção sem palavras pensadas. Percebeu apenas. E não percebeu que toda sua essência, purpurina asa de borboleta, fora despencada do infinito, vindo atingir um plano de inúmeras dimensões e cores furta-cor, que mais lembrava o céu visto da terra... Mas não tinha mais lembranças, não pode pensar no céu da terra. Como se o céu fosse da terra. E não é que era? Ficou por lá, toda espalhada, em proporções imensuráveis que refletiam as luzes dos astros, que compunham o cenário do infinito manifesto.
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