Posso sussurrar em seu ouvido e você pedirá que eu repita, perderia assim toda delicadeza, não sei improvisar. Talvez deva escrever. Minha vontade mesmo era de gritar... Acordaria toda a rua, e não restaria dúvida, estou enlouquecendo. O mais prudente seria que você me olhasse diretamente nos olhos, mas aí, aí toda minha coragem ia se desbotar, como prova meu rosto rubro e voz trêmula gaguejaria – não, não há nada a dizer... - o que corrói é a certeza de não saber o depois. Depois de me dar por entregue à essa sensação persistente, certamente terei a solidão como eterna companheira. Escolho então essa aflição latejante? Posso sentir cada batida do coração como um grão de areia escorrendo pela ampulheta, antes que seja tarde, antes que... Poderia ser só ilusão! Possivelmente, como tantas outras vezes, a carência me empurrando novamente pressa samsara sedutora. Assim, nada terei a perder... Se já sei que nada ganho, nada perco, é só um acúmulo de poeira e rugas, mais uma camada morta na pele calejada. Omito-me... Nego minha covardia, covarde seria se admitisse, se fizesse disso um drama piegas. Mas ainda posso tentar me entregar ao momento e ficar aqui te observando respirar enquanto dorme, deixar que você determine nosso destino, submeto-me então aos seus desejos e caprichos, satisfaço-me com seu gozo e suspiro...
Ele se virou na cama, seu braço pousando na cintura dela.
Só não me diga que não é real! Que não sente sua pele toda capaz de desprender do corpo quando nos tocamos? Você também sente, não? Posso sentir na forma que me toca, quando me diz lindas poesias num simples bom dia!
Sem perceber, ela apertava-lhe o braço, que se desvencilhou bruscamente da sua cintura.
Não posso mais sofrer, por favor, diga que é especial, prometo não falar de planos nem de futuro, diga apenas uma vez que me am...
Ele acordou, sorriu-lhe, com as pontas dos dedos, acariciou-lhe o rosto, com o polegar apertou-lhe suavemente os lábios.
Diga, por favor diga...
- Te vejo amanhã? Deve ser tarde, ainda preciso trabalhar.
Amanhã, te vejo amanhã e todos os dias de nossas vidas! Preferiria que não fosse...
- Ok... Deixe a porta encostada, por favor.
Ele se levantou e se vestiu rapidamente, antes de deixar o quarto, fez menção de voltar... Mas ela já havia se virado, de costas pra ele. Esqueceu-se de encostar a porta... Também se esqueceria de voltar no dia seguinte.
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