Você tá vendo? – ela segurava os seios e os apontava em direção a ele. Um par de seios pequenos, duros de bicos vermelhos, com o aspecto mais vivo que os trinta anos correspondentes.
- Você tá vendo? Já apontam pro chão, logo despencarão, murchos e velhos... – virou-se para o espelho, soltou os seios – tudo bem, não precisa dizer, não vou ficar triste por isso.
Ele na cama, imóvel, seguia silenciosamente seus movimentos com os olhos.
Diante do espelho, enquanto ela tirava a calcinha, lentamente, cantava baixnho pra si: Tum, Tum, Tum, que bate aí? Tum, Tum Tum, quem bate aí? Sou eu minha senho...
- Ainda me acha atraente? – virou-se bruscamente para ele, o tom da voz desesperado, quase gritava.
-Tudo bem, desculpa, eu só tava pensando que, depois de tanto tempo... – pegou uma escova na penteadeira e agora falava olhando para o objeto, sua voz era suave novamente – depois de tanto tempo, parece que as coisas mudam de cor, já reparou? As vezes sou criança de novo e vejo minhas bonecas dançando sozinhas sobre a cama, exatamente aí, onde você está... Você lembra onde mamãe guardou as bonecas? Ela sempre diz pra brincar com as mais velhas, mas tem aquela de louça de vestido... qual era a cor do vestido? Não importa, nunca brinquei com ela.
- Mamãe, onde está a boneca que a tia Lucia deu? Deixa eu brincar com ela, só uma vezinha! – gritou em direção a porta, esperou uns segundos, e voltou-se para ele.
- É mesmo, quase me esqueci, mamãe foi velada com o vestido da boneca, lembra? Você não estava lá! Eu não te via ainda naquela época, onde você estava? - ela se aproximou da cama, ajoelhou-se e se arrastou até ele.- Promete nunca me deixar? – acariciava sua barriga – você tem o hábito de fugir às vezes, eu o perdôo, sempre, sempre você sabe! Mas volte, nunca deixe de voltar... – ele agora olhava pra janela aberta.
- Sabe, um dia, vamos morar naquele chalé lá no alto da cidade, só nos dois... ou podemos ficar e esperar os sonhos nos levarem pra qualquer paraíso que... – começou a rir – você sonha alto! – agora gargalhava. Ele se sentou na cama.
- Não, por favor não vá ainda!
Antes de pular da cama pra janela, ele se aproximou dela, ronronou trançando em seu tronco nu e lambeu a patinhas.
- Vá ingrato! Nunca estou sozinha... – voltou-se para o espelho e iniciou a escovar os cabelos, cantava baixinho – Non, jê ne regrette rien...
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