
Foi andando pela areia branca, apanhando as conchas que encontrava no caminho, como se nunca. Tão semelhantes, as conchinhas miúdas e de mesma cor. Onde estariam as conchas coloridas e exóticas das fotos de cartões postais? Espremeu os olhos na tentativa de enxergar o fim daquele extenso tapete verde-água. Estavam mais adiante as conchas belas e exóticas, inalcançáveis. Como os nobres sentimentos, lá no fundo, tão fundo... Tentar buscá-los seria pedir o afogamento da alma. Tão fundo...
Sentiu uma dor suave, acompanhada de uma umidade morna vinda da palma da mão direita. Demorou-se ainda um pouco contemplando o grande tapete antes de desviar os olhos. Sem pressa, seus gestos pareciam vindos de um sonho surreal, cada movimento entorpecido pelo odor da maresia. Na palma da mão a conchinha cor de salmão trincada ao meio, um fiozinho vermelho sangue contrastando com a alvura da mão fria. A borda rósea da concha tingida sutilmente pelo sangue que agora gotejava sem pressa, indo pingar e se afundar na areia branca sob seus pés. Sem que desse conta, todos os cheiros e cores se fundiram numa coisa só. Não havia mais contraste que definisse as diferenças.
Sentia o corpo pesado todo indo ao encontro da areia úmida pela ultima onda. Todos os membros se integrando a cada grão da areia, cada pedaço do corpo, cada fio de cabelo, uma única coisa. A imagem azulada da água foi substituída pela limpidez do céu sem nuvens. Permitiu que aquela percepção de unidade lhe atingisse. A verdade revelada sob o céu que cegava. Segundos antes, o cansaço do corpo denunciava; é o fim, o fim. Agora sabia. É o começo! – quis gritar. O grito, interrompido na garganta, foi propagado pelo infinito. Era o começo, o começo. O silêncio já dizia.
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